Em
alguns momentos da minha existência precisei trabalhar e modificar uma série de
coisas dentro de mim. Padrões de comportamento, algumas inseguranças que ainda
existiam... havia muito a resignificar.
Fiz
uma faxina, dei uma geral. Precisava de movimento e fé raciocinada. Não aceito
outro resultado que não seja a felicidade e a leveza do ser. Ser eu
mesma.
Percebi
que não preciso buscar nada fora de mim. Meu destino escolho diariamente.
Nasci
em um lar espírita, fui presenteada por Deus com uma avó (médium) maravilhosa,
sábia, humilde e resignada. Ela não pregava o evangelho, Cristo, religião. Vivia
o evangelho. E, com certeza não era um presente exclusivo, ela era o ponto de
equilíbrio de toda família. A matriarca.
Aos 18
anos, entre um Titanic e outro, comecei a estudar a doutrina. Tudo que lia
parecia tão natural, familiar. Era o começo do meu despertar. Passei a compreender
alguns acontecimentos. Em 1992, já com 22 anos, conheci o Lar de Frei Luiz
(também chamado de Mini Cidade do Amor) e tão nobre trabalho de caridade
e amor realizado na Boiúna. Foi um momento ímpar na minha vida. Grande escola!
Em
meados de 1994, na mesma semana da vitória do Brasil, perdi a visão em um
acidente de carro. Só perdi a visão, não perdi a vida. Preso as ferragens do
carro, meu filho foi resgatado apenas com pequeno corte na testa. Nada material
sobrou daquele dramático e abençoado acidente. No hospital fui levada ao centro
cirúrgico pra retirarem à córnea. Levei mais de 300 pontos em toda face. A cada
ponto uma prece e a súplica por alguém da família.
Era
madrugada, eu já não sabia onde estava meu filho e ainda não tinha noção que o
sangue que cobriu todo rostinho dele era meu. Nada aconteceu a ele e ao pai que
estava dirigindo.
Confesso
que ao ouvir a conversa dos cirurgiões a respeito da córnea, tremi de medo, de
dor, dor na alma. Aquilo podia ser só um pesadelo. Mas não era, era real.
Chamei por minha avó e minha prima, alguém tinha que me ouvir. Acho que sou
muito querida mesmo pelo plano espiritual. Nossos pensamentos intercruzaram
pelo universo. Todos os átomos se interligaram e minha avó e minha prima onde estavam
viram tudo. Minha prima visualizou até a roupa que eu estava. Alguns momentos
depois, já em preparo pra tão dramática cirurgia, minha madrinha chegou ao
hospital e impediu tal procedimento, solicitando minha transferência. Ela é mesmo
minha sempre Fada Madrinha!
Em
outro hospital, passei por três cirurgias, nada felizes e bastante dolorosas,
mas não retirei à córnea. Minha madrinha teve o cuidado de não permitir que
ninguém falasse como estava meu rosto. Longos dias e noites seguiam. Eu
afirmava que ia voltar a enxergar. Tinha verdadeira certeza disso. Só pedi uma
ligação pro Carlos
Vereza, amigo e irmão na Mini Cidade do Amor, que foi tão presente naquele
momento. Naquela ocasião realizávamos um trabalho com ele no Lar de Frei luiz.
Ele solicitou que me levassem pra lá de qualquer maneira, ainda que fosse de
maca.
Minha
recuperação acontecia como mágica. Comecei o tratamento na Mini Cidade do Amor.
Inicialmente com Dr Bezerra de Menezes - era um preparo para ser atendida pelo Dr Frederick Von Stein. -
Foi um dos momentos mais importantes dessa minha breve passagem por aqui. Se eu
estava ali era por amor, misericórdia, compaixão e caridade de amigos encarnados
e desencarnados. Fui muito abençoada. Recuperei a visão.
Nunca
fiz nenhuma cirurgia plástica, segui a risca o tratamento com a fórmula da rosa
mosqueta receitada pelo Cirurgião plástico Dr. Patrick (médico uruguaio de
passagem pelo Brasil). Ele cuidou do meu rosto com tanto carinho e competência que
fez toda diferença. Me aconselhou a não fazer plástica e tão pouco a cirurgia
pra retirar o caco de vidro que tenho até hoje no olho esquerdo. Quando pude
visualizar meu rosto, que até então só o percebia pelo tato, apaguei aquela
imagem no mesmo momento, passando a me olhar no espelho como eu era antes. Não
evitei o espelho, ao contrário, pratiquei vários exercícios na frente dele, até
os mais dolorosos, no mínimo seis vezes ao dia, por longos meses.
Esse meu breve relato do acidente, da visão perdida e minha feliz experiência
com os abnegados amigos espirituais não é pra converter ninguém à doutrina e
tão pouco pra provar um milagre. Não acredito em milagre e a doutrina espírita
não é religião, é filosofia de vida. Acredito em doação, merecimento,
desprendimento, oportunidade, cirurgia moral.
Por
vezes nossa visão fica turva diante da vida, de acontecimentos ou pessoas que
nos decepcionam. Nossos sonhos escorrem por nossas mãos como ratinhos, tudo
acontece lá fora, mas aqui dentro nada acontece. Traçamos metas que não
alcançamos (talvez porque estavam além dos nossos limites), não recebemos o
amor que merecemos, não vivemos o romance que idealizamos. E por aí vai.
Enxergamos cada vez menos.
Naquele
momento do acidente, fui resiliênte, tive visão de águia, fui determinada,
minha fé moveu todo o processo. Recebi o que estava pronta pra receber,
socorro, auxílio, compaixão e de volta minha visão.
Segui
longo caminho e sofri outros acidentes (de percurso) por conta das minhas
escolhas. Em muitos momentos não resignifiquei, me neguei a acessar alguns
códigos da inteligência, perdi a visão interior.
Não
basta ser boa, caridosa, honesta, amar o próximo. Tem que ter amor próprio, fé
em si, trabalhar o autoconhecimento, a reforma íntima. Tem que ser gestor do
intelecto, autocrítico, resiliênte, altruísta, debater ideias, ter carisma,
intuição criativa e ser gestor da emoção.
O
carro do acidente era meu, mas eu não o estava dirigindo. Por vezes me
perguntei se aconteceria o acidente se fosse eu na direção. Cada vez mais tenho
a certeza que ainda que eu dirigisse naquele dia e não acontecesse o acidente,
com certeza seria em outro momento. Naquela ocasião eu me negava ‘inconsciente’
a dirigir a minha vida. Atraí o acidente que já acontecia dentro de mim.
Esse foi
o meu momento de transição. Recuperei a visão interior, resgatei o meu amor, me
perdoei pela estrada errada que segui. E tudo mais veio e vem de acréscimo.
Paguei a dívida que tinha comigo mesma.
Quando
não realizamos o trabalho de casa, dentro de nós, ninguém pode nos ajudar. Atraímos
o que vibramos, o que acreditamos e o que pensamos.
Estou
atenta as minhas emoções, ao que sinto, quero, penso, falo e escolho.
A
estrada errada que segui, foi a mais tortuosa, silenciosa e traiçoeira. Fiz o
que queriam, não fiz o que eu desejava, o que era capaz de fazer. Por isso
parei de dirigir. Talvez de dirigir minha própria vida. Senti medo e permiti
que tirassem proveito da minha insegurança. Foi como abrir mão da minha
liberdade, me afastei do meus valores.
Me
preparei pra sair com cuidado, fazer curvas, acelerar, frear, estacionar, segui
meu caminho, a minha própria estrada.
Hoje
sou feliz, leve, dona da minha história, da minha visão e dos outros seis
sentidos (inclui a intuição criativa).